As crises

Outubro 22, 2008

ANTONIO DELFIM NETTO, Folha de São Paulo (22/10/08)

As crises

UM POUCO DE história ajuda a relativizar a gravidade da crise que estamos vivendo.
Ela não será o “fim do mundo”!
Desde 1790, há registros confiáveis da “variação da conjuntura”, que sempre obedeceu a movimentos cíclicos irregulares, com períodos e intensidade variáveis. Pode-se (até 2008) contar pelo menos 46 desses ciclos, com períodos contracionistas da ordem de 20 meses.
Uns leves, outros profundos, mas, de todos, a chamada “economia de mercado” saiu mais forte.
De cada um deles, pelo diálogo entre a realidade e a teoria econômica que pretende entendê-la, ela saiu melhorando suas instituições.
Todas as organizações sociais e econômicas alternativas até agora “inventadas” por cérebros peregrinos mostraram-se menos eficientes na produção e menos compatíveis com a liberdade individual. De crise em crise, aproveitando a imaginação criadora do homem e a sua liberdade de iniciativa, a economia de mercado nos levou (no que respeita a produção material), em dois séculos, da Idade da Pedra à Idade da Informática.
As crises são ínsitas ao sistema.
Elas nunca têm as mesmas causas, porque a teoria econômica ajuda na construção de instituições que previnem a sua repetição. Mas o fato é que a superação de uma delas já traz em si o germe da próxima. A última, fortíssima (1979/83), foi supostamente causada pelo “excesso de regulamentação”; a atual é, aparentemente, produto da “falta de regulamentação”…
Desde a sua origem, o conhecimento econômico se divide em duas concepções diferentes.
Uma atribui aos “mercados” virtudes quase divinas e capazes de produzir a eficiência alocativa e, simultaneamente, a harmonia geral. Outra vê nos mercados um eficiente mecanismo alocativo, mas incapaz de produzir harmonia.
A organização produtiva pelos mercados traz consigo a eficiência e, também, uma tríade diabólica: a flutuação do nível de atividade (e, logo, do emprego), a incapacidade de reduzir na velocidade desejada o nível de pobreza e a tendência a aumentar a desigualdade na distribuição da riqueza produzida. É essa diferença que divide os estadofóbicos dos estadólatras, nenhum dos quais, obviamente, portador da verdade.
O Brasil apenas recentemente recuperou o “espírito do desenvolvimento” e superou os fatores que poderiam matá-lo: a falta de energia ou o déficit não-financiável do balanço em conta corrente.
Seria uma pena destruí-lo por falta de imaginação e pânico com a atual crise externa…


Sistema financeiro: por que salvar; como não regular

Outubro 18, 2008

 

Maílson da Nóbrega, Veja (22/10/08)

“Mesmo que a nova regulação elimine as falhas que
contribuíram para a atual situação, o que é desejável,
dentro de alguns anos haverá uma nova crise. Isso
porque os reguladores não conseguem acompanhar
as inovações e a criatividade do mercado nem 
detectar todos os seus riscos”

Três afirmações podem ser feitas em meio à atual crise. Primeira, governos responsáveis não permitem o colapso do sistema financeiro, como se viu na recente ação coordenada dos países ricos para capitalizar seus bancos. Segunda, as hipotecas subprime não serão a causa da próxima crise financeira. Terceira, a regulação será revista e melhorada, mas não parece exeqüível criar uma “autoridade monetária internacional”.

A crise mostrou a dificuldade de entender o sistema financeiro. Não é de hoje. Há tempos os banqueiros são vistos com suspeita e antipatia. Na Idade Média, os pensadores escolásticos e a Igreja Católica condenavam os juros. Nas obras de Shakespeare e Émile Zola, os banqueiros ocupam um plano bem inferior ao das prostitutas.

Os bancos não emprestam o seu dinheiro, mas o dos outros. Captam os recursos dos poupadores e os repassam aos que deles precisam. Ganham a diferença entre essas duas operações (o spread) e comissões por outros serviços. São intermediários financeiros. Ao contrário do senso comum, os bancos preferem que o Banco Central possa manter os juros baixos, pois isso reduz o risco de inadimplência. Melhor para eles é um ambiente institucional que diminua os riscos. Isso aumenta a pontualidade e faz cair o spread.

Oito séculos depois que o atual sistema financeiro começou a tomar forma nas cidades-estado italianas, a atividade ainda é vista como parasitária. As operações e os lucros estariam desconectados da economia real. Na crise, essa percepção equivocada se acentuou. Políticos aqui e lá fora conseguiram juntar ignorância e demagogia.

Surpreendeu o grau de desinformação nos Estados Unidos. Os americanos exigiram punição severa para Wall Street. O governo deveria deixar os bancos quebrar. Apenas 30% eram favoráveis à aprovação do pacote de 700 bilhões de dólares, cujo objetivo era evitar o colapso do sistema.

A revolta tinha seus motivos. Muitos perderam as residências hipotecadas. Outros não se conformavam com os polpudos salários e bônus nos bancos que contribuíram para a crise. Na rejeição inicial do pacote, metade dos democratas e republicanos da Califórnia votou contra, com um olho nas urnas. Não era para menos. O preço dos imóveis naquele estado caiu 40% em um ano.

Mesmo diante da impopularidade do pacote, os dois senadores que disputam a Presidência da República compareceram para votar a favor e assim convencer os seus pares da necessidade de aprovação. Nenhum deles gostaria de administrar os escombros da implosão da economia real. Ambos sabem que não há capitalismo nem prosperidade sem sistema financeiro.

O sistema capitalista contemporâneo começou a surgir na Europa Ocidental no século XVII na esteira de dois grandes acontecimentos: (1) os avanços institucionais que aboliram o arbítrio dos reis, asseguraram direitos de propriedade e lançaram as bases das finanças modernas; (2) a derrubada de certos dogmas da Igreja Católica, o que permitiu o desenvolvimento da ciência e deu status moral à atividade de emprestar dinheiro.

Até o advento dessa revolução, a economia européia precisara de quinze séculos para quadruplicar. Em 1820, o capitalismo havia gerado o mesmo desempenho em apenas 320 anos. Daí até o fim do século XX, 180 anos depois, o PIB europeu multiplicou-se por 47. Nesses 500 anos, a economia americana se expandiu 634 vezes. Nos tempos atuais, a economia chinesa tem dobrado a cada seis ou sete anos.

Uma das principais contribuições para esses resultados e para os correspondentes ganhos de bem-estar foi a do sistema financeiro. Dele dependeram a Revolução Industrial iniciada no século XVIII e o novo impulso à economia no fim do século XIX, derivado das inovações que fizeram nascer o crédito ao consumo e ampliaram as fontes de financiamento do investimento e do progresso tecnológico.

Estudos recentes mostram que os países detentores de bons sistemas financeiros tendem a crescer mais rapidamente. O processo se intensifica quando se dispõe de adequados mercados de capitais e de grandes bancos privados. Criam-se incentivos à elevação da taxa de poupança e os recursos são mais bem alocados. A produtividade aumenta, acelerando o ritmo do crescimento.

Além do crédito, os bancos provêem o sistema de pagamentos, pelo qual se asseguram o uso de cartões de crédito, as transferências bancárias, os saques em dinheiro e a miríade de atividades relativas a pagar salários, adquirir matérias-primas, quitar impostos, fazer compras, viajar, cuidar da saúde e por aí afora.

Na Idade Média, os bancos quebravam quando os reis não pagavam os empréstimos para financiar guerras. A atividade econômica sofria pouco. Hoje, uma quebra generalizada de bancos pode vir de uma crise de confiança que os torne insolventes. A ausência de crédito e o colapso do sistema de pagamentos levariam a economia à depressão, com catastróficos efeitos econômicos, sociais e políticos.

Para conter esse risco, os governos usam todos os instrumentos, inclusive a estatização dos bancos ou a injeção de recursos públicos para capitalizá-los, como agora. Ao contrário do que comemora a esquerda, não se está diante de uma guinada ideológica, mas da necessidade de enfrentar uma realidade inescapável. As ações dos bancos reverterão ao setor privado tão logo se domine a crise.

Tem-se atribuído grande parte da crise à desregulação dos mercados. Ocorre que as hipotecas subprime – o seu epicentro – se expandiram depois que o Congresso americano criou regras para induzir as semi-estatais Fannie Mae e Freddie Mac a atuar em favor da população de menor renda. O mercado de subprime explodiu a partir de 2004, quando as duas empresas passaram a comprar montanhas dessas operações.

No outro extremo, faltou regulação para o mercado de derivativos. A falha teria decorrido da resistência de Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve. Para ele, a regulação prejudicaria o uso de um bom instrumento para distribuir os riscos do sistema. A auto-regulação resolveria. Assim, os derivativos saltaram de US$ 75 trilhões em 1997 para US$ 600 trilhões em 2007 (de 2,5 para onze vezes o PIB mundial).

É certo que a regulação será revista, incluindo a modernização do confuso aparato regulatório americano e a criação de câmaras de compensação para os derivativos. Uma boa regulação aumentará a transparência, manterá a capacidade de inovação dos bancos e preservará sua contribuição ao aumento da produtividade e ao desenvolvimento. Não se pode regular pensando apenas em controles. Isso tornaria o sistema menos arriscado, mas a economia cresceria menos.

Felizmente, haverá tempo para refletir sobre o assunto. Dificilmente haverá açodamento na feitura da nova regulação. Exageros poderão ser evitados. As autoridades americanas deverão exercer influência decisiva na definição das novas regras. Diferentemente do que se tem dito nestes dias, os Estados Unidos ainda serão hegemônicos por muitas décadas.

O governo brasileiro defende a criação de uma “autoridade monetária internacional”. Por aí, burocratas baseados em um determinado país ditariam regras para bancos do mundo inteiro, do Iraque às nações ricas. É uma idéia sem futuro. A União Européia discute o estabelecimento de uma Comissão Bancária regional, que dificilmente teria o status supranacional do Banco Central Europeu. Os bancos centrais dos países-membros seriam mantidos com a tarefa operacional de supervisionar os bancos locais.

Mesmo que a nova regulação elimine as falhas que contribuíram para a atual situação, o que é desejável, dentro de alguns anos haverá uma nova crise. Isso porque os reguladores não conseguem acompanhar as inovações e a criatividade do mercado nem detectar todos os seus riscos. Explicação: os bancos têm maior capacidade de recrutar talentos e de melhor remunerá-los do que os governos.

Como aconteceu em outras oportunidades, o sistema financeiro se fortalecerá. As crises costumam gerar mudanças institucionais que melhoram o seu funcionamento. Esta não é, pois, a crise terminal do capitalismo, que Marx previu (e errou) há mais de um século, nem o ressurgimento do intervencionismo estatal de outros tempos. Nos países em que a re-regulação for bem feita, os bancos aumentarão sua contribuição para a geração de riqueza e bem-estar.


Análise de Paul Kennedy

Outubro 18, 2008

Economia Paul Kennedy
A geopolítica da crise

“A perda de força do dólar é uma tendência de longo prazo que deve se acirrar. No momento, isso não é visível. O dólar se apreciou. Mas a crise financeira deve acentuar a migração de reservas internacionais da moeda americana para outras moedas”

Veja (22/10/08)

Robert Lisak
O exemplo de Roosevelt
Para Kennedy, a economia tem de ser a prioridade do próximo presidente americano


Vinte anos atrás, o inglês Paul Kennedy causou furor com o livro Ascensão e Queda das Grandes Potências. Depois de estudar a trajetória das nações globalmente dominantes nos últimos 500 anos, ele indagava se os Estados Unidos, superpoder do presente, teriam entrado em declínio. Para Kennedy, a resposta era de certa forma afirmativa. No século XXI, os Estados Unidos deveriam perder uma parte de sua influência. Mas a queda não seria absoluta – apenas um “declínio relativo”. Nesta semana, Kennedy, um dos mais respeitados cientistas políticos em atividade, visita o Brasil a convite do Instituto Fernando Henrique Cardoso. Em entrevista ao editor executivo Carlos Graieb, ele explicou por que acredita que a crise financeira vai fragilizar ainda mais o poderio americano.

O impacto da crise no poderio americano 
A crise financeira deve enfraquecer o dólar. Ela deve acentuar a migração de reservas internacionais da moeda americana para outras moedas. No momento isso não é visível. O dólar se apreciou ao redor do mundo, porque muitos americanos estão repatriando o dinheiro investido no exterior. Mas a perda de força do dólar é uma tendência de longo prazo que a crise deve acirrar. Não haverá fuga em massa do dólar, pois um colapso da moeda deixaria o mundo todo em sérias dificuldades. Mas uma parte das reservas internacionais deverá ser feita em outras denominações.

Finanças e armamentos 
O orçamento militar tomou contornos sagrados nos Estados Unidos. Os dois partidos prometeram mantê-lo sólido e vistoso, para demonstrar compromisso com as tropas que combatem no Iraque e no Afeganistão. Todos os gastos somados, contudo, o pacote de resgate econômico americano já gira em torno de 1 trilhão de dólares – um valor próximo do orçamento destinado à defesa. Por causa disso, a maioria dos analistas militares acendeu sinais de alerta. Os Estados Unidos se mantêm isolados na ponta na esfera militar, mas uma fração dessa força deve ser minada.

O declínio relativo da grande potência
Aquilo que o comentarista político Charles Krauthammer chamou de “momento unipolar” na história mundial acabou. Esse momento se caracterizou pela total hegemonia americana, logo após a derrocada da União Soviética. Retornamos ao cenário discutido em Ascensão e Queda das Grandes Potências, que publiquei em 1988. É um cenário de declínio relativo dos Estados Unidos. Nos últimos dez anos, surgiram potências que o país não pode intimidar ou mesmo influenciar. É o caso da China e da Índia, e também da nova Rússia de Vladimir Putin. Há duas maneiras de lidar com essas mudanças: a sensata e a desastrada. Quem quer que substitua George W. Bush, que optou pela via desastrada, terá de agir com enorme cautela. A maior tarefa será a estabilização econômica. O novo presidente americano deveria ter em mente a figura de Franklin Delano Roosevelt. Os três primeiros anos de seu mandato, de 1933 a 1935, foram devotados a tirar o país da depressão econômica. Um presidente inteligente vai se concentrar nisso, não tendo em vista apenas a crise financeira atual, mas também a tendência de mais longo prazo de deixar que o país acumule déficits monstruosos.

Alexey Druzhinin/AFP
No mesmo barco
Com a crise, 60% da capitalização da Rússia de Vladimir Putin (acima) se evaporou


A Rússia na ciranda financeira
A crise econômica teve algo de positivo para o Ocidente, que via com apreensão uma Rússia que exercita novamente os seus músculos. Nas últimas semanas, a Bolsa de Valores de Moscou interrompeu o pregão várias vezes. Houve fuga de capitais. Mais de 60% da capitalização do país se evaporou. Além disso, o preço do petróleo está caindo – e a Rússia é imensamente dependente dessa única commodity. Mas não é só isso. Pela primeira vez, desde o começo do século XX, a Rússia tem de se preocupar com o que os bancos europeus e americanos fazem. No tempo de Brejnev, o nível da taxa Libor – que regula os empréstimos interbancários no plano internacional – era a última preocupação dos soviéticos. Eles não estavam envolvidos nesse jogo. Agora, contudo, se bancos não emprestam a outros bancos, o dinheiro não chega aos negócios russos. O país se descobriu interligado ao sistema financeiro internacional – e isso aumentou o poder de barganha do Ocidente.

Cuidado com o que você deseja
Refletir sobre a perda de poder dos Estados Unidos não é o mesmo que ansiar por ela. Cada vez que vejo europeus, por exemplo, com semblante satisfeito por causa de algum fracasso americano, vem-me à mente aquele alerta: cuidado com o que você deseja. Será que realmente desejamos os Estados Unidos feridos, ressentidos, defensivos, protecionistas ou nacionalistas? Não creio. Acho preferível ver os Estados Unidos de volta à tradição mais cooperativa de presidentes como Truman, Eisenhower ou Kennedy. Pensemos, até mesmo, em presidentes como Bush pai, que foi muito sagaz em questões de política externa e soube lidar muito bem com a desintegração da União Soviética, ou em Clinton, afeito ao multilateralismo.

Um fórum internacional
O grau de interligação se tornou imenso. A atividade acontece 24 horas. Nenhuma das instituições internacionais existentes, como o Banco Mundial ou o FMI, pode lidar com isso. Falta um comitê dos banqueiros centrais das dez ou doze maiores economias do mundo encarregado de lidar de maneira sistemática com as grandes questões financeiras e apto a agir nos momentos de emergência. Não proponho a criação de uma instituição enorme, mas de um comitê com maior força política.


Capitalismo dos empreendedores

Outubro 18, 2008

Como fazer o capitalismo se interessar pelos pobres? Bill Gates acha que sabe, mas está errado

 Celebridades, às vezes (traindo certa culpa) dizem coisas assim: “o capitalismo melhorou sim, as vidas de muitas pessoas,mas também deixou de fora bilhões delas”. Como remediar? Bill Gates propõe:“Precisamos de um capitalismo mais criativo. As grandes corporações podem ser o instrumento para incluir mais gente no sistema; são elas que têm as competências para fazer inovações tecnológicas que funcionem para os pobres”.

Algum ogro ousaria discordar de proposta tão generosa? Obrigado por perguntar.

Se a história ensina algo, as grandes corporações não serão o caminho. Veja por que.

O capitalismo é construído sobre o direito das pessoas “terem coisas” (“titularidade da propriedade privada”,como dizem pomposamente). Existem grandes diferenças entre os cerca de 200 países que o praticam, como ensina em livro recente o scholar William Baumol. Há pelo menos quatro tipos de capitalismo – de qual deles Bill Gates estará falando?

Em certos bolsões da America Latina, Oriente Médio árabe e África, há o que chamam decapitalismo oligárquico. Nele, riqueza e poder são altamente concentrados, e as regras existentes reforçam essa situação. Naturalmente ,Bill Gates não está se referindo a isso.

Noutro tipo, o capitalismo é guiado pelo estado - governos incentivam os setores da economia que identificam como tendo mais chance de serem vencedores. As economias do sudeste asiático tiveram sucesso assim,mas nas regiões miseráveis a que se refere Gates, não há nada parecido com uma base industrial da qual se possa selecionar “vencedores”. Esqueça.

Um terceiro tipo seria o capitalismo de grandes corporações - o defendido por Gates como veículo de inclusão para os pobres. Grandes empresas dominam a produção e o emprego,produzindo em massa inovações criadas por empreendedores. Europa Ocidental e Japão são exemplos.

Será que filiais de grandes corporações desempenhariam esse papel em lugares pobres? Difícil. Falemos claro: grandes empresas tendem a só inovar para ganhar dinheiro da maneira pela qual estão estruturadas para ganhar dinheiro. Não lhes falta talento ou recursos, o que elas não têm é apetite para arriscar – têm medo de gerar a percepção de que podem tornar seus acionistas mais pobres com inovações de margem ($) mais baixa. Esse tipo de inovação é o único que pode dar certo em “mercados de pobre”. Bill Gates está exortando as grandes corporações a irem contra seu próprio DNA. O instinto delas é: inovação sim, mas só do tipo “mais da mesma margem”.

IBM perdeu a liderança em PCs porque não deu para conciliar seus processos para comercializar main frames [caros e com margens de mais de 60%],com processos para PCs [baratos e margens de 20-30%]. Canon Ricoh com pequenas copiadoras de mesa de margem baixa, fizeram a poderosa Xerox sangrar. As motos Honda idem com as Harley Davidson. Rádios e TVs transistorizados Sony acabaram com os modelos de mesa da RCA (e acabaram, de quebra, com a própria RCA) .

Inovações “para pobre” geralmente entram no mercado “por baixo” – têm performances inferiores, são mais baratas e só têm apelo ao público que não usa o produto-padrão.

Quase ninguém usava fornos de micro ondas na China antes da Galanz. Com um modelo de negócio de altos volumes a preços muito baixos, a chinesa Galanz (não a Samsung, não a GE, não a Siemens) criou um mercado: em 1993 ela tinha 2% de market-share, em 2000 tinha 76%. Clientes menos exigentes (pobres) ficam felicíssimos em adotar produtos assim, pois a outra opção é não ter produto nenhum.

As grandonas, quando agem, o fazem quase sempre para reagir à ameaça de “tubaínas” locais. Veja a Unilever. Sua subsidiária na Índia – a Hindustan Lever - sempre focara o topo do mercado, até que apareceu a Nirma oferecendo detergente “para pobre”, muito mais barato, produzido segundo um modelo de baixo custo. Formulação, embalagem, produção, distribuição – tudo diferente. A Unilever teve de se mexer. Reformulou totalmente seu modelo para evitar que a “tubaína” da Nirma, vinda de baixo, continuasse a bicar o topo do mercado como já começara a fazer. A Unilever é das poucas que reconhece ativamente o mercado “para pobre”, tendo incorporado sua experiência hindu às suas práticas globais,mas ela é exceção. A GM fala há anos em produzir um carro abaixo de 3000 dólares, mas quem já lançou um foi a indiana Tata Motors. É assim desde sempre: a poderosa Western Union dona das comunicações no século XIX (telégrafo), rejeitou o telefone de Graham Bell porque seu sinal só alcançava três milhas. ABell Telephone começou então com um modelo de baixo alcance e “subiu”, melhorando pouco a pouco a tecnologia até matar a Western Union.

O quarto tipo de capitalismo de que fala William Baumol – o capitalismo de empreendedores - é o que oferece melhores perspectivas. Nele, o dinamismo se origina em empresas pequenas, iniciativas de indivíduos empreendedores (modelo americano). Um montão de inovações que criaram setores econômicos inteiros surgiu assim. Quem quer incluir os pobres no capitalismo deveria estimular o empreendedorismo local entre os pobres, não tentar mudar a cabeça das grandes corporações. Elas dizem que farão mas não farão na escala necessária. Seu DNA não deixa.

Empreendedores locais sempre existem independentemente da população ser pobre ou rica. Sua ação se dá por meio do processo “schumpeteriano” de sempre: eles introduzem o novo “destruindo criativamente” o que havia antes.

Só uma coisinha: nos locais hoje excluídos, não há nada a ser destruído porque não há nada criado. O estímulo “de fora” deve ser para o surgimento da fase “pré-destruição”, ou seja, da fase da “criação criativa” mesmo. A partir daí, o empreendedor local resolve.


A CRISE FINANCEIRA, A POLÍTICA E OS MANETES!

Outubro 16, 2008

Cesar Maia, Ex-Blog do Cesar Maia (16/10/08)

1. Economistas usam uma analogia biológica para explicar a relação entre o sistema financeiro e o produtivo. Dizem que o sistema financeiro é o sistema sanguíneo da economia. Outros preferem uma linguagem agrícola, dizendo que é o sistema de irrigação da economia. De uma ou outra forma, se o sistema sanguíneo está doente ou a irrigação não ocorre satisfatoriamente, a economia toda, no mínimo estará doente, ou a safra será muito baixa.

2. O governo federal procura alardear otimismo falando que aqui as coisas serão diferentes. Mas se a bolsa despencou, alguns pequenos bancos ficaram insolventes, a liquidez interna sofreu uma forte contração e o governo federal mandou liberar o redesconto e baixou uma medida provisória que tem o sabor de uma lei delegada para intervir no mercado financeiro, é evidente que o sistema sanguíneo ou de irrigação, interno, já foi atingido e a economia já o está sendo.

3. A resultante todos sabem: a taxa de crescimento em 2009 e 2010 será bem menor do que a projetada nos projetos de lei de diretrizes orçamentária e de orçamento. Há uma hipótese entre analistas, que ficará entre 2% e 3%. No entanto há que se ver o que significa isso. Quando uma economia cujo PIB é de 100, cresce, suponhamos para raciocinar de forma simplificada, 1 ponto aritmético por mês, em janeiro o PIB será de 101, em fevereiro de 102… até dezembro quando será de 112.  O PIB desse ano teria alcançado 1.278.

4. Se a economia entrar em dezembro em recessão e parar de crescer, esses 112 de PIB ficarão iguais todo o ano seguinte e o PIB será de 1.344. Mas as estatísticas divulgadas dirão que houve um crescimento de 1.344 / 1.278 ou mais 5,16%. Essa informação estatística nada terá a ver com o que sentem as empresas e as pessoas. Por exemplo, a taxa de desemprego aumentará, pois novas gerações estarão entrando no mercado de trabalho. Se a economia está parada de fato e como o crescimento é uma média entre setores, alguns estarão decrescendo, desempregando, reduzindo a produção, com todo o multiplicador incorporado sobre outros setores.

5. Quando se faz um prognóstico de que a economia brasileira vai crescer em 2009 à taxa de 2,5%, na verdade se está dizendo que comparando a economia de 2009 com dezembro de 2008, ela estará parada e em forte recessão com todas as seqüelas sociais e fiscais.

6. Os elogios à gestão monetária responsável do governo Lula deve passar pela análise política. Uma coisa é ser responsável em início de governo, longe da eleição. Outra é uma recessão em final de governo. Em 2005/2006 a economia estava dentro de um ciclo de crescimento num patamar de 5%. As afirmações de responsabilidade monetária eram fáceis de serem feitas. Outra é viver num quadro de crise e recessão.

7. O governo FHC pode ser elogiado por quase tudo. Mas certamente não é o caso da gestão da política econômica em 1998. As irresponsabilidades -cambial e fiscal- foram ao limite. FHC ganhou a eleição, mas a economia estourou em seu segundo mandato.

8. Nessa crise financeira com os mega-pacotes de ajuda aos bancos, analistas nos EUA se perguntam por que o governo Bush deixou o Lehman quebrar? Um deles disse: um erro grave pela proximidade da eleição. Imaginavam que não daria tempo de contaminar o sistema, afirmariam a natureza liberal da política econômica, mostrando ao povo que os poderosos também quebram e manteriam até as eleições o Iraque e a política externa no centro do debate, com uma vitória fácil e previsível para McCain.

9. Mas “não se havia combinado com o adversário”, para lembrar Garrincha. A contaminação veio à vista, o sistema entrou em colapso, se adotou um keynesianismo nunca visto, a agenda eleitoral veio para dentro e McCain derreteu.

10. O que farão Lula e seus pelegos distribuídos pela máquina com remunerações explosivas e poder ilimitado? Entregarão a rapadura à oposição? Quem terá coragem para arriscar e ir empurrando com a barriga e ver se Deus ajuda e se chega às eleições de 2010? E o que se fará em final de governo, com o desemprego aumentando, empresas quebrando ou reduzindo a produção, o superávit comercial externo desabando em função dos preços das commodities, o câmbio subindo…? Simplesmente se mantém a responsabilidade monetária e fiscal e se faz tudo certo por amor à Pátria?

11. O cenário político que este Ex- Blog projeta é o governo tentando manter o crescimento a qualquer custo, ampliando o déficit fiscal nominal, a turma da fazenda e do banco central sendo chamadas para uma conversinha política e a demanda sendo irrigada de qualquer forma para que a taxa de crescimento não caia para menos de 3%. O resultado -na melhor hipótese- será a inflação subindo bem além dos patamares recentes. E na pior hipótese, o nosso conhecido processo de estagflação.

12. Se com FHC e Malan se fez assim, imaginem com Lula e Mantega! Apertem os cintos e esperem as festas juninas de 2009 e terão a certeza que será assim. E previnam-se “hedgeando” as irresponsabilidades fiscais e monetárias que virão e a inflação em alta. E cuidado, pois os manetes (“remember” o desastre de Congonhas) podem estar na posição invertida.


Lehman Brothers, Marx & Sons.

Outubro 16, 2008

Demétrio Magnoli, O Estado de São Paulo (16/10/08)

Quando o Lehman Brothers entrou em bancarrota, provocando a implosão de Wall Street, os filhos órfãos de Karl Marx começaram a disseminar uma narrativa ideológica da crise que é tão desonesta quanto reacionária. Essencialmente, eles dizem que o neoliberalismo faliu e que a causa da catástrofe é a desregulamentação do mercado financeiro. Neste mantra, convertido em senso comum, uma mentira factual fica protegida atrás da paliçada conceitual de uma fraude.

O neoliberalismo não faliu porque não existe. A fraude conceitual ampara-se no ocultamento dos dados empíricos. Nos anos 20, tempos do liberalismo, os gastos públicos sociais nos EUA (pensões, educação, saúde e welfare) não alcançavam 5% do PIB. Depois, com o New Deal e os “30 anos gloriosos” do pós-guerra, criou-se o Estado de Bem-Estar e os gastos sociais cresceram até perto da linha de 20% do PIB. Segundo o teorema histórico que emoldura a noção de neoliberalismo, o Estado de Bem-Estar ruiu sob os golpes hayekianos de Ronald Reagan. Mas – surpresa! – os números contam outra história. A “era Reagan” não provocou contração dos gastos sociais, conseguindo apenas estabilizá-los temporariamente. Hoje, eles ultrapassam os 20% do PIB (veja o gráfico no blog http://www.terra.com.br/economia/blog/iconomia/index.htm, de Gilson Schwartz).

O Estado de Bem-Estar é um fruto da democracia de massas. O neoliberalismo só poderia existir com a restauração da democracia restrita dos tempos do liberalismo, quando o direito de voto era privilégio de uma minoria. Os filhos de Marx não entendem isso porque hostilizam o princípio democrático, que imaginam representar uma invenção “burguesa”. Eis o motivo pelo qual suas análises econômicas se chocam com os dados empíricos.

Na hipótese de desabamento de um viaduto condenado por erros de engenharia, deve-se culpar a lei da gravidade? É algo assim que fazem os filhos de Marx quando atribuem o colapso financeiro a uma combinação de ganância com livre mercado. A referência à “ganância” nada diz sobre esta crise específica, pois o imperativo do lucro é um traço estrutural da modernidade capitalista, mas diz muito acerca de um pensamento econômico contaminado pelos dogmas do cristianismo medieval. Quanto à desregulamentação, ela só existe no mundo imaginário dos ideólogos.

O economista Steven Horwitz escreveu uma carta aberta a seus “amigos da esquerda” identificando as diversas regulamentações políticas que incentivaram o tsunami especulativo no mercado imobiliário (o link está no blog de Gilson Schwartz). Ele prova factualmente que o mercado no qual se armou a tragédia nada tem de liberal, articulando-se sobre uma teia de regras, emanadas do Executivo e do Congresso, que pavimentaram o caminho rumo à concessão de empréstimos cada vez mais arriscados. Fannie Mae e Freddie Mac são corporações hipotecárias tecnicamente privadas, mas patrocinadas pelo poder público, que operavam sob garantia de resgate estatal em caso de falência. As agências reguladoras autorizaram-nas, em 1995, a entrar no mercado de subprime e exigiram dos bancos privados um aumento dos empréstimos imobiliários para devedores com poucos recursos. A “ganância” fez o resto, mas no ambiente de liquidez abundante, propício à especulação, gerado pela política monetária do banco central americano e pela política fiscal do governo Bush.

Para salvar sua narrativa ideológica sobre os mercados desregulamentados os filhos de Marx erguem um Muro de Berlim metodológico entre as esferas da economia e da política. O conservador Horwitz é mais honesto, evidenciando a presença ubíqua da “mão visível” do Estado no financiamento privado do mercado imobiliário americano. Mas a sua honestidade tem limites, definidos por uma perspectiva ideológica. A utopia inviável de Horwitz é um retorno à idade de ouro liberal e ele prefere criticar a “mão visível” democrata à republicana. Por esse motivo, menciona só de passagem a política econômica da “era Bush” e, sobretudo, não a vincula à guerra no Iraque.

Pela primeira vez na história, uma guerra de grandes proporções foi conduzida por um governo que não conclamou os cidadãos a fazerem sacrifícios, mas, explicitamente, a “irem às compras”. A mistura tóxica de juros baixos e cortes de impostos com um déficit orçamentário crescente formou o pano de fundo da ciranda especulativa num mercado intensamente regulamentado. A implosão das altas finanças nos EUA, contagiando os mercados internacionais e anunciando a recessão global, não é obra exclusiva do governo Bush, mas tem as digitais de uma “mão visível” disposta a tudo para assegurar apoio interno à política externa cruzadista dos neoconservadores. A análise econômica reacionária dos filhos de Marx oculta tudo isso.

Neoliberalismo é um signo que adquiriu diferentes significados desde o seu uso inicial, no fim do século 19. A partir das “revoluções” de Reagan e Margaret Thatcher, contudo, sua utilização se disseminou e seu significado deslizou rumo a um colapso. Depois da queda do Muro de Berlim, neoliberalismo sofreu um processo de redução fetichista, convertendo-se em senha de identificação coletiva de uma confraria dos derrotados – algo como um lenço de lapela pelo qual um nostálgico do “socialismo real” reconhece seus iguais. Não há problema nisso, com a condição de que a nostalgia de uma minoria não destrua a capacidade pública de decifrar o sentido das coisas.

Marx podia estar fundamentalmente errado, mas nunca deixou de buscar as articulações entre economia e política. Seus órfãos, traindo-o, inventaram uma economia “neoliberal” desregulamentada e denunciam uma “contradição” fatal quando os governos “neoliberais” se preparam para estatizar o núcleo do sistema financeiro. Eles não percebem que um padrão de regulamentação está sendo substituído por outro. Nem que a “mão visível” da política está presente nos dois. 

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP. E-mail: demetrio.magnoli@terra.com.br


Dois textos de David de Ugarte sobre a crise

Outubro 14, 2008

Sábado, 4 de Octubre de 2008

El peligro de esta crisis

El peligro de esta crisis no reside estrictamente en lo económico, sino en los discursos políticos que empiezan a servirse de ella para reclamar un mundo más cerrado y autoritario en nombre de una supuesta economía democrática.

La especulación financiera se hizo global antes de que el mundo construyera alguna estructura global. No hay poder político con capacidad suficiente para enfrentarse a ella y dominarla. Los alterglobalizadores tenían razón, así que escampará si escampa, y si no, no, porque la política se arrodilló ante el dinero y este voló por su cuenta. Ahora está en todas partes y en ninguna, difuso, fuera de control. Por eso, la política produce la impresión de esos padres cuyos hijos adolescentes hace mucho tiempo que hacen lo que les da la gana y, sin embargo, cuando se tenga un minuto, lo primero que habrá que hacer es devolver la autoridad a la política, a la política democrática. Y proclamar que la economía ha de estar sometida a ella.

Queda muy bonito. Pero es muy peligroso. Porque no existe, aunque suene bien, algo como economía democrática. No hay nada que devolver a los viejos estados nacionales y su clase política que no sea causa de miserias infinitas aquí y allá. Mucho peores que cualquier crisis.

En la economía global hay tres libertades: la libertad de movimiento de personas, la de capitales y la de mercancias. ¿Qué significa devolver la autoridad a la política?

¿Restringimos los movimientos de personas aún más? Implantar la xenofobia como política de estado -que es en lo que en un primer momento consistió la respuesta democrática de la UE, no mejora las posibilidades económicas pero nos acerca a un mundo más autoritario. No es casualidad que la extrema derecha suba en media Europa por encima del 30%, es el discurso anti-inmigrante de la izquierda democrática la que alfombra su ascenso.

¿Azuzamos a la UE a ser aún más proteccionista? Tenemos el ejemplo histórico de la PAC. El coste del campesinado hipersubvencionado no sólo es una alimentación más cara (unos 1000€ más al año). Es sobre todo, la imposibilidad de acumular capital en el campo de los países en desarrollo y la expropiación de hecho de millones de pequeños agricultores en la periferia capitalista que, no pudiendo producir para exportar, se convertirán en presión migratoria.

¿Restringimos los movimientos de capitales? El crédito es como el aire. Cuando corre libremente nadie nota hasta que punto lo necesita. Pero que cuando falta y sentimos ahogo, que la respuesta sea cerrar la bombona de oxígeno parece demasiado irracional. ¿O sólo pretendemos cerrar el oxígeno para América Latina, Asia y Africa?

¿Los antiglobis llevaban razón? No. Los problemas de la globalización no son los que han llevado a esta crisis. Los problemas de la globalización se enfrentan globalizando más y de forma más simétrica, no cerrando el mundo… Y esa es precisamente la lección del 29, cuando los cierres de fronteras para personas y el proteccionismo comercial convirtieron la crisis financiera norteamericana en una crisis económica global que habría de durar una década.

De momento esta crisis ni de lejos es comparable a la de 1929… aunque si algo puede hacer que lo sea son precisamente esos discursos que bajo el manto de la democratización de la economía invocan un mundo más cerrado, más autoritario, más del gusto del viejo nacionalismo de estado. El mismo mundo hecho de privilegios y exclusiones, por cierto, por el que clamaba Cebrian el otro día, para el que vive la SGAE y que desarrolla legislativamente cada día esa Europa disciplinaria y autoritaria que no queremos.

Martes, 14 de Octubre de 2008

Crisis, redes y umbral de rebeldía

Explicar porqué no ocurrió y se hizo en cambio necesario entrar en el mundo de los planes de rescate, no parece aportar en exceso ahora, pero precisamente puede ser la clave para el rediseño de las reglas del juego financiero. Claves infinitamente más útiles que el mero regular por regular en la esperanza banal de que un mundo financier cuasi reestatalizado sea una balsa de aceite.

Mucha gente me pide que escriba una explicación de la crisis financiera -y ahora bursatil- desde desde la perspectiva de redes. Parece que la nueva moda es combinar la palabra crisis con todas las que se nos ocurran. Se me antoja que en esta pasión por la crisis hay mucho de voluntad de castigo, como en la supuesta crisis ecológica. Una voluntad de castigo que produce profecías autocumplidas, un tema en si precioso que el recien nobelizado Paul Krugman trató en muchísimos artículos.

Pero la clave de esta crisis está en la Economía de la Información. Es la opacidad de los fondos la que creó la llamada burbuja subprime y la que hizo que los bancos no se prestaran entre si ya desde finales del segundo trimestre del año pasado, haciendo más que previsible -como contábamos en el editorial de Navidad de las Indias- lo que ahora está pasando.

¿Y las bolsas? No hacen falta redes para explicarlo. Juan lo cuenta muy bien:

La Bolsa cayó la semana pasada básicamente por el lag entre el anuncio de las diferentes formas de resacate y su puesta en práctica.

Sabemos que ese rescate va a poner en evidencia a los bancos malos y premiar a los buenos. Pero como no sabemos cuales son unos y otros, los inversores venden bancos para estar posicionados para cuando se disipe la falta de información y comprar bancos.

Pero si los bancos caen , los inversores piensan que todos están mal y que las medidas tomadas para que funcione el crédito y se rehagan las demás empresa de la economía real, no van aser suficientes. En consecuencia venden también los demás valores.

Y como hace notar, lo que sigue haciendo falta es ese strip-tease de los (anglo)bancos, ahora ya forzado por la misma lógica de los rescates que reclama desde el verano de 2007:

todo se debe a la falta de información sobre la situación de los bancos. Si esta se disipa, tal como parece que puede ser el caso , todo comenzará a fluir razonablemente otra vez.

Y la verdad, es que la teoría de redes sociales podría explicar por qué los bancos no comenzaron por si mismos a hacer ese strip-tease y confesar sus estados reales mientras aún estaban a tiempo. Es sencillo y estaba precisamente en los modelos de Chew y Urrutia. Se llama umbral de rebeldía

Explicar porqué no ocurrió y se hizo en cambio necesario entrar en el mundo de los planes de rescate, no parece aportar en exceso ahora, pero precisamente puede ser la clave para el rediseño de las reglas del juego financiero. Claves infinitamente más útiles que el mero regular por regular en la esperanza banal de que un mundo financier cuasi reestatalizado sea una balsa de aceite.

La moraleja final es que de haber existido conocimiento mutuo entre los bancos, de haber sido una red realmente distribuida, la crisis no hubiera llegado a estallar. Es la topología de red del mundo financiero la que ha de reformarse y no tanto la innovación -por otro lado imparable e indomeñable- de los productos financieros.


Crise no mercado financeiro e recuperação da confiança

Outubro 13, 2008

Luiz Carlos Bresser-Pereira, Folha de S.Paulo (13/10/08)

A crise financeira que assola o mundo é grave. Nada lhe é comparável desde 1929. É uma profunda crise de confiança decorrente de uma cadeia de empréstimos originalmente imobiliários baseados em devedores insolventes que, ao levar os agentes econômicos a preferirem a liquidez e assim liquidarem seus créditos, está levando bancos e outras empresas financeiras à situação de quebra mesmo que elas próprias estejam solventes. Entretanto, dada a reação pronta e geralmente competente dos governos de todos os países, que compreenderam a gravidade do problema e pouco hesitaram antes de tomar medidas para aumentar a solvência e garantir a liquidez dos mercados, não há razão para pessimismo. Estou seguro de que em breve a razão voltará aos mercados, as Bolsas recuperarão parte de suas perdas, as taxas cambiais voltarão a se estabilizar, e a recessão inevitável não terá nada de parecido com a crise de 1929.

Há uma série de fatos que hoje estão claros a respeito desta crise financeira. Primeiro, sabemos que é uma crise bancária que ocorre no centro do capitalismo, não é uma crise de balanço de pagamentos comuns entre os países em desenvolvimento que tentavam até os anos 1990 crescer com poupança externa, ou seja, com déficit em conta corrente e endividamento externo. Os grandes déficits em conta corrente que marcaram a economia americana nesta década combinados com grandes déficits públicos não são, porém, estranhos à crise bancária. A falta de confiança não é apenas nos bancos e no mercado, é também na economia americana como um todo.

Segundo, sabemos que a causa direta da crise foi a concessão de empréstimos hipotecários de forma irresponsável, para credores que não tinham capacidade de pagar ou que não a teriam a partir do momento em que a taxa de juros começasse a subir. E sabemos também que esse fato não teria sido tão grave se os agentes financeiros não houvessem recorrido a irresponsáveis “inovações financeiras” para securitizar os títulos podres transformando-os em títulos AAA por obra e graça não do Espírito Santo, mas de agências de risco interessadas em agradar seus clientes.

Terceiro, sabemos que tudo isso pode ocorrer porque os sistemas financeiros nacionais foram sistematicamente desregulados desde que, em meados dos anos 1970, começou a se formar a onda ideológica neoliberal ou fundamentalista de mercado. Para ela, os mercados são sempre eficientes, ou, pelo menos, mais eficientes do que qualquer intervenção corretiva do Estado e, portanto, podem ser auto-regulados.

Para essa ideologia, que desde o governo Reagan se transformou no instrumento do “soft power” americano, esse era o sistema econômico mais eficiente, único caminho para os demais países dado que as alternativas seriam formas de “socialismo social democrata” europeu, de “populismo” no terceiro mundo e de “estatismo disfarçado” na Rússia e na China, que seriam muito inferiores.

Quarto, sabemos que essa ideologia ultraliberal era legitimada nos Estados Unidos pela teoria econômica neoclássica, uma escola de pensamento que foi dominante entre 1870 e 1930, então entrou em crise e foi substituída pela teoria macroeconômica keynesiana, que se tornou dominante nas universidades até meados dos anos 1970, e voltou à condição dominante desde então por razões essencialmente ideológicas.

Economistas como Milton Friedman, James Buchanam, Mancur Olson, Robert Lucas, Kydland e Prescott apontaram sua armas contra o Estado e se encarregaram de demonstrar matematicamente, “cientificamente”, com o auxílio dos pressupostos do Homo economicus, das “expectativas racionais” e da “escolha racional” que o credo neoliberal era correto.

Quinto, sabemos que esse tipo de teoria econômica não foi utilizado tanto pelos formuladores de política econômica nos governos quanto pelos analistas de macroeconomia nas empresas e nos jornais e publicações especializadas.

Não foram utilizados porque a pressuposição neoclássica de mercados eficientes dispensa qualquer política econômica a não ser a de ajuste fiscal o resto deve ser liberalizado, desregulado, já que os mercados seriam auto-regulados. Como os governos e os analistas precisavam orientar sua política monetária, continuaram a usar o instrumental keynesiano de forma pragmática. Os experimentos macroeconômicos neoclássicos foram reservados para os países em desenvolvimento. Como, entretanto, os países ricos liderados pelos Estados Unidos não escaparam da prescrição desreguladora agiram como o escorpião que morde sua própria cauda.

Sexto, agora, quando vemos o Estado surgir em cada país como a única tábua de salvação, fica evidente o absurdo da oposição entre mercado e Estado proposta por neoliberais e neoclássicos. Um liberal pode opor coordenação do mercado à do Estado, mas não pode se colocar, como os liberais se colocaram, contra o Estado, buscando diminuí-lo. O Estado é muito maior do que o mercado é o sistema constitucional-legal e a organização que a garante é o instrumento por excelência de ação coletiva da nação. Cabe ao Estado regular e garantir o mercado e, como vemos agora, servir de emprestador de última instância.

Tudo isso está muito claro. O que não está claro é por que os mercados estão resistindo a recuperar a confiança apesar das medidas fortes que os governos estão tomando. Não tenho resposta segura para essa questão, mas creio que dois fatores contribuem para a profundidade da desconfiança: de um lado, o enfraquecimento da hegemonia americana nos anos 2000, não apenas devido aos déficits gêmeos, mas também à Guerra do Iraque, aos abusos contra os direitos humanos e à instrumentação da democracia como forma de dominação. De outro, um erro grave e pontual cometido pelo Tesouro americano: não ter salvo o Lehman Brothers. Bancos grandes não podem ir à falência o risco de crise sistêmica é muito grande.
Foi a partir dessa decisão que o quadro financeiro mundial entrou em franca deterioração.

O salvamento da AIG no dia seguinte, o pacote de US$ 700 bilhões para dar solvência aos bancos, as diversas intervenções de bancos europeus garantindo seus próprios bancos e garantindo os cidadãos depositantes, e a baixa coordenada de juros pelos bancos centrais não fizeram efeito até agora.

Essa resistência dos mercados financeiros às ações dos governos é mais uma demonstração de sua irracionalidade. De seu clássico comportamento reflexivo e de manada. Estou seguro, entretanto, que a confiança voltará em breve. Não plenamente. Certamente com cicatrizes para os EUA e com prejuízos para todos, inclusive cerca de dois anos de recessão.

Mas não teremos nada parecido com a depressão dos anos 1930, porque, naquela época, o governo americano demorou quase quatro anos para agir.

Agora, usando instrumentos keynesianos e pragmáticos, não apenas o governo americano, mas todos os governos relevantes financeiramente estão agindo imediatamente, e com força. E são governos que têm por trás de si Estados fortes, democráticos, dotados de legitimidade política e de recursos fiscais vultosos. Não há razão para que não sejam afinal bem-sucedidos e a confiança seja recuperada.


O que fazer nesta crise

Outubro 13, 2008

Stephen Kanitz, http://www.kanitz.com/impublicaveis/crise.asp (10/08)

Toda crise tem sete fases.

Fase 1. Não há problema na economia, diz a autoridade econômica, é tudo boato.
Fase 2. Sim, temos um problema mas tudo está sob controle.
Fase 3. O problema é grave mas medidas corretivas já foram tomadas.
Fase 4. O problema é muito grave mas as medidas emergenciais surtirão efeito.
Fase 5. Pânico geral e salve-se quem puder.
Fase 6. Comissões de inquérito e caça aos culpados.
Fase 7. Identificação e prisão dos inocentes.

Os Estados Unidos e a Europa estão na fase 5. Brasil, China e Índia estão na Fase 3. Precisamos nos proteger contra a possibilidade de chegarmos na Fase 5, quando basta um entrevistado na televisão afirmar “que esta crise é igual ou pior que a de 1929”, como vários já falaram, ou escrever no jornal “as conseqüências da crise chegaram definitivamente no Brasil”, como já foi publicado, e gerar pânico por aqui.

Não, a crise ainda não chegou no Brasil, ainda estamos na Fase 3 e mesmo se crescermos 0% este ano, o que ninguém prevê, toda empresa irá vender a mesma coisa no ano que vem. Sua promoção pode estar em risco mas não o seu emprego.

Ademais esta crise nada tem a ver, nem terá, com a severidade da crise de 1929, quando 25% dos trabalhadores perderam seus empregos e que durou até 1940 com 14%. Na pior das hipóteses, o desemprego nos Estados Unidos aumentará 3%, mesmo assim só por 24 meses.

Se tivessem líderes administrativos socialmente responsáveis, eles já teriam ido a público garantir que manteriam o nível de emprego de suas empresas nos próximos 12 meses. Hoje custa mais para se treinar um novo funcionário do que para mantê-lo fazendo algo por 12 meses. 

Depois que Alan Greenspan e Nouriel Roubini saíram dizendo que a crise era igual à de 1929, todos os americanos pararam de gastar, aumentando sua poupança e prevendo o pior.  Ninguém sabe quem serão os 25% de desempregados. Quando 100% dos consumidores param de gastar por um único mês, cria-se uma espiral recessiva imprevisível. Outra alternativa seria alertar os 3% que talvez sejam demitidos para economizar, para que os 97% possam manter normalmente suas compras evitando a espiral recessiva.

Na crise de 1929, 4.000 bancos quebraram, e a mera referência a 1929 como fizeram Greenspan e Roubini, leva pessoas leigas a correr para os bancos, o que aconteceu agora na Europa.

A imprensa perdeu a capacidade de filtrar e processar informação premida pelo tempo exíguo para colocar tudo na internet. Publicam o que vier, especialmente se for notícia ruim.

Nenhum banco comercial irá quebrar, nenhum ainda quebrou nos EEUU, e mesmo se forem um ou dois, nada se compara com 4.000. Bancos sempre quebram mas ninguém percebe. Mesmo se quebrarem, o seu dinheiro, ao contrário de 1929, está no fundo DI e não no Banco. O Fundo DI está no SEU NOME e dos demais cotistas, e se um banco brasileiro quebrar, o que não vai acontecer, seu dinheiro está salvo. No máximo você terá de esperar uma semana para a troca de administrador do seu fundo. O dinheiro está aplicado em títulos do tesouro em SEU NOME, não do Banco.

Deixar o dinheiro onde está é o mais seguro. Se você resgatar o seu fundo DI, o dinheiro cai na sua conta, e se o banco quebrar justo neste dia, você vira um credor do banco. Nossos bancos estão recebendo depósitos dos apavorados estrangeiros. Muita gente em pânico está saldando suas cotas em fundos de ações e o seu gestor é OBRIGADO a vender uma ação mesmo com ela caindo 20% no dia, algo que você jamais faria.

Acionistas majoritários não estão em pânico, nem podem nem querem vender suas ações. Só os minoritários se sentem uns idiotas porque não venderam na “alta”.

Não temos bancos de investimento no Brasil. De fato, Roberto Campos implantou neste país este mesmo modelo americano que está ruindo, mas felizmente foi uma lei que “não pegou”. Problema a menos.

Só temos bancos comerciais, e estes são muito bem controlados pelo Banco Central. Além do mais, nossos bancos têm dono, e por isto estão pouco alavancados, 4 a 5 vezes, contra 20 a 25 vezes dos bancos de investimentos americanos.  

O Brasil não está alavancado. Nossos créditos diretos ao consumidor não passam de 36% do PIB, e devem crescer para 40% no ano que vem. Os Estados Unidos estão alavancados em 160% do PIB e é esta desalavancagem súbita que está causando problemas.

Nosso Banco Central, adotou o que venho alertando há anos a países e famílias – a política de ter reservas para os dias de crise e hoje temos US$ 200 bilhões. Pela primeira vez o Brasil tem reservas para sustentar uma crise duradoura, sem ter que se endividar para cobrir furos de caixa.

Temos um sistema financeiro dos mais modernos e rápidos do mundo implantado devido à inflação galopante dos anos 90. Nos Estados Unidos demora-se duas semanas para se descontar um cheque entre bancos, por isto o sistema travou. Nenhum banco confia em outro banco numa crise destas. 

Esta é a hora para disseminar a nossa força, as nossas reservas, a competência de Henrique Meirelles, primeiro administrador financeiro (Coppead) a comandar o nosso Banco Central, e já se nota a diferença. Está na hora de mostrarmos ao mundo que como a China e Índia, nós vamos crescer via mercado interno, com produtos populares, tese que há anos venho defendendo.

Esta é a hora de mostrar o que DÁ CERTO no Brasil em vez de conseguir fama no rádio e na televisão mostrando o que poderia dar errado.

Lembre-se que os verdadeiros culpados já estão se movimentando para culpar os inocentes, e assim saírem incólumes e mais poderosos.